Por Bruno Muniz
Cosme da Silva Campos, ou apenas Campos, atuou por diversos clubes na década de 70 e 80, conseguiu números importantes, que lhe renderam até a convocação para a Seleção Brasileira. Mas, o ex-jogador passou por um momento muito ruim em sua carreira, ele acabou se tornando o primeiro atleta a ser pego no exame antidoping.
Revelado nas categorias de base do Atlético em 1970, Campos surgiu como grande promessa no futebol brasileiro. Um jogador habilidoso e veloz com muito potencial. Em 1972, foi emprestado para o Nacional-AM, onde rapidamente se destacou,terminando como vice-artilheiro do Brasileiro daquele ano com 14 gols. No ano seguinte, retornou ao Galo, conquistando o Campeonato Mineiro e terminando como o artilheiro da competição com 15 gols.
Entretanto, ainda em 1973, numa partida contra o Vasco da Gama pelo Campeonato Brasileiro, Campos sofreu um baque, ele acabou sendo pego no exame antidoping e foi suspenso por seis meses. Na época com apenas 21 anos, o ex-jogador alegou que ingeriu um remédio para tratamento dentário e não sabia que continha a substância efedrina. A suspensão tirou a oportunidade do jogador de disputar a Copa do Mundo de 1974.
Em uma conversa com o Futebol de Minas, Campos relembrou o início da sua carreira, a passagem pela Seleção, o pesadelo que viveu ao ser pego no exame antidoping, falou sobre a situação atual do Atlético e muito mais.
FM: Você começou sua carreira no Atlético, como começou sua trajetória como jogador?
Campos: Na verdade nunca pensei em ser jogador profissional de futebol. Nasci em numa família humilde, morava em uma fazenda e para se ter ideia nem televisão em casa eu possuía. Sempre que o time do Mercado Central vinha jogar aqui, entrava para completar o time do Pedro Leopoldo escondido do meu pai. Ele, analfabeto e muito rígido, tinha pavor de jogador de futebol. Um dia me destaquei demais no jogo, e acabei em uma peneira no Atlético. Fui chamado para as categorias de base com 13 para 14 anos. Lembro bem do medo que tive quando recebi a notícia, só pensava em como faria para convencer meu pai; enquanto os outros garotos comemoravam, eu sofria com a angústia de que minha família não permitisse. Quando contei para o meu pai tomei uma surra, mas, era o que queria para mim, e minha mãe acabou convencendo-o a deixar que eu fizesse uma experiência. Com 18 anos subi para o time principal onde fui revelado como centroavante, e em meados de 1972 fui emprestado para o Nacional de Manaus, lá me projetei, em poucos jogos do brasileiro estava na disputa pela artilharia, naquele ano, fui vice-artilheiro com 14 gols. Voltei para o Galo onde fiquei até 1976, depois disso, passei por 23 clubes.
FM: No início da sua carreira em quem você se espelhava? Qual era seu ídolo?
Campos: Comecei a conhecer os jogadores e saber quem eram os renomados ao longo das partidas que participava, não acompanhava futebol de perto como a garotada faz hoje; naquela época acesso a informação não era tão fácil como hoje em dia com a internet. Achava as jogadas bonitas e ia me espelhando nelas, queria me destacar, ser o melhor que pudesse. Sonhava mesmo em poder dar uma vida melhor para minha família, uma boa casa na cidade para meus pais e ajudar meus irmãos. Não tinha um ídolo, tentava pegar o melhor de cada jogador que via em campo.
FM: Em 1975, você disputou a Copa América com o Brasil, como foi sua passagem pela Seleção? Acha que podia ter rendido mais?
Campos: A Copa América de 1975 foi a 30a edição do torneio e a primeira realizada sem uma sede fixa, o que ocasionou uma série de idas e voltas. Viajamos toda América do Sul numa mesma competição, este sem dúvidas foi um grande desgaste. Nesta época o Brasil disputava o campeonato com um time cuja base era de clubes mineiros. Acho que fui bem, fui titular, para se ter uma ideia, meu reserva era o Roberto Dinamite.
FM: Você foi o primeiro jogador a ser flagrado no exame antidoping, como isso aconteceu?
Campos: Bem, eu era muito jovem, estava em início de carreira, mas, já no ano anterior fui vice-artilheiro do Campeonato Brasileiro, era uma promessa. No jogo anterior no Maracanã, contra o Vasco, em 04 de novembro de 1973, tomei uma joelhada e deixei o campo, pois havia sofrido um corte no lado interno da boca, perdi três dentes, tive vários outros abalados etc. No dia seguinte, quando cheguei a Belo Horizonte, eu e o Dr. Haroldo Lopes da Costa, que cuidava da minha contusão, procuramos o Dr. Helvécio de Sousa, dentista. Fiz um tratamento de urgência, e para conciliar o tratamento com minha presença no time, resolvemos (eu, o Dr. Haroldo, o Dr. Helvécio e o técnico Telê Santana) que a cirurgia seria feita após o jogo de volta, no dia 19 de novembro. Durante o tratamento, tomei anti-inflamatórios, antibióticos, e analgésicos (Parenzine, Patomicina, Tetraciclina, Dorflex e Novalgina), nenhum destes medicamentos constava na relação dos considerados como doping. No jogo de volta no Mineirão, marquei os 2 gols da vitória do Galo, fui submetido ao exame anti doping, e o resultado indicou a presença de efedrina. Para o Dr. José Elias Murad, o problema era de simples defesa científica, pois eu havia tomado muitos comprimidos de Dorflex no dia da partida e este medicamento é derivado da efedrina. Para mim, o caso teve muitos pontos obscuros, dentre eles, os prazos. Por que o jogo do dia 18 de novembro de 1973 só teve o resultado divulgado no dia 26? E por que o resultado só foi comunicado a mim e ao Atlético no dia 28? Existia ainda uma portaria, que recomendava que a contra prova fosse feita em uma Universidade, na época, a CBD informou que em razão do alto preço cobrado pela única do Rio que poderia fazê-lo, recorreria a um laboratório particular, de confiança deles. Outra coisa que nunca entendi foi porque o Dr. Haroldo na ficha do exame não declarou a medicação a que eu estava sendo submetido. Não tive nenhum apoio, não possuía instrução, não tinha uma assessoria, fui condenado pela inocência.
FM: Você acha que sua condenação foi injusta e exagerada?
Campos: Injusta, todos viram como deixei o campo após a joelhada que levei do Renê (Jogador do Vasco), com o maxilar afetado, boca cortada, três dentes perdidos e com outros vários abalados, fui imediatamente submetido a um tratamento onde nenhum dos medicamentos estava na relação dos considerados como doping. Só consumi os medicamentos prescritos pelo departamento médico! Se tivesse sido pego por uso de droga, abaixaria a cabeça e assumiria meu erro, mas jamais usei nada disso! Não foi só uma condenação injusta, acabei estigmatizado por algo que não cometi; e talvez a condenação tenha sido o menor dos sofrimentos que este episódio me acarretou.
FM: Em sua opinião, o STJD hoje em dia está mais rigoroso no julgamento comparado a sua época?
Campos: O futebol evoluiu e a legislação acompanhou. No meu caso, por exemplo, quando saí machucado de campo com a joelhada do Renê nem o atleta nem o clube carioca tiveram qualquer punição. Hoje a regra mudou, a TV mostra os lances com riqueza de detalhes e consequentemente os julgamentos do STJD se tornaram mais rigorosos. Na minha época apanhávamos bastante dentro de campo, não existia punição como hoje (multa, suspensão etc.), com isso, tínhamos que nos defender dentro das quatro linhas.
FM: O que achou da absolvição do nadador César Cielo?
Campos: Justa, torci muito por ele!
FM: O goleiro do Bahia, Renê, foi pego no exame antidoping no ano passado pela mesma substância de Cielo e foi condenado. O que você acha disso?
Campos: Quando se é atleta, deve-se ter muito cuidado com qualquer medicação ingerida. Não se pode agir como uma pessoa comum que se automedica; tudo precisa passar pelo departamento médico do clube, que sabe o que é ou não permitido pela Justiça Desportiva. Acredito que o René tenha agido de boa fé ao ingerir o remédio para dor de cabeça que sua esposa lhe deu, mas, infelizmente teve o azar de o mesmo conter uma substância proibida. Já o caso do Cielo, na minha opinião foi diferente, e alguns fatores contribuíram diretamente para uma punição mais branda, a advertência. É óbvio que o contexto e as provas apresentadas no julgamento já pesaram bastante. É no mínimo intrigante Cielo e os outros 2 nadadores manipularem remédio na mesma farmácia e serem pegos no doping com a presença da mesma substância. O fato da própria farmácia de manipulação assumir o erro da bancada suja ter ocasionado a contaminação com a substância proibida, trouxe um peso diferente ao julgamento. Sinto muito pelo René, e torço para que em setembro ele volte com tudo!
FM: Qual o melhor jogador com quem você já atuou junto?
Campos: Indiscutivelmente o camisa 10 Pita (Edivaldo Oliveira Chaves), meia direita extremamente habilidoso e inteligente, foi revelado pelo Santos, e joguei com ele lá.
FM: Qual o melhor jogador que você viu atuar?
Campos: Sem dúvidas Reinaldo (também revelado pelo Galo), e Romário.
FM: Atualmente, qual jogador você acha que parece com você quando jogava?
Campos: Hoje o jogador que mais se parece comigo é o Neymar. Lógico que eu não tinha o talento dele, os dribles e essas jogadas sensacionais, mas o temperamento de chamar a responsabilidade pra si, a ousadia e a alegria são idênticos. Também apanhava um bocado, assim como ele, mas, a diferença é que eu também batia, não levava desaforo não.
FM: O Atlético está vivendo um momento ruim no Brasileiro este ano, o que acha da situação do clube? Ele conseguirá se recuperar no Brasileiro?
Campos: Acho que algumas alterações ainda precisam ocorrer, alguns jogadores precisam mudar de postura, mas acho que a qualidade já começa a melhorar, no último jogo já vimos um time mais ofensivo, sem se abater, se impondo mais. Acredito que a contratação do André ajudará muito, temos grandes jogadores, como Daniel Carvalho, Neto Berola, Wesley, e outros. Quero muito ver o Eron se firmar, gostaria de ver o Serginho de volta com as atuações de 2008. Falta acertar ainda a parte tática, vimos o Caio isolado, algumas arestas precisam ser aparadas, mas, o que não se pode dizer de forma alguma é que a diretoria não dá excelentes condições de trabalho para o time lutar para subir na tabela. O time ainda está distante do que pode se chamar de competitivo. Como bom atleticano que sou o que espero é a recuperação, vamos torcer!
FM: O que anda fazendo atualmente? Continua ligado no futebol?
Campos: Mesmo com 58 anos, continuo jogando até hoje. Aos sábados no Estádio do Pedro Leopoldo, com o time de veteranos e aos domingos com uma outra turma, além disso, agencio jovens jogadores para as categorias de base de vários times em todo país. Também tenho me dedicado à qualificação profissional, fazendo alguns cursos para futuramente realizar meu maior sonho que é seguir a carreira de treinador de futebol. O futebol corre nas minhas veias, jamais conseguirei me afastar!
FM: Para encerrar, defina o futebol brasileiro hoje e na sua época em uma palavra.
Campos: Hoje, fama. Na minha época, paixão.
FM: Mande uma mensagem aos leitores do Futebol de Minas
Campos: Antes de mais nada, quero agradecer ao Bruno Muniz, pela entrevista e pela oportunidade de contar um pouco da história da minha carreira e poder estar presente num site tão conceituado. Quero também parabenizar toda equipe do site pelo trabalho desempenhado e dizer que sou fã de vocês! Deixo a mensagem aos leitores que são apaixonados por futebol, assim como eu, que independente do time que cada um torce, todos merecem respeito, e somente juntos vamos conseguir acabar com a violência nos estádios e fazer com que o futebol seja sempre um espetáculo maior. Estamos aí prestes a sediar uma Copa do Mundo, e temos que dar o exemplo, não gostaria de ver por aqui o que ocorreu na Argentina e em outros lugares como temos visto pela TV. Vamos todos juntos levantar a bandeira da paz e mostrar que podemos dar um show também nas arquibancadas!
* Material exclusivo. Qualquer reprodução deverá citar o futeboldeminas como fonte.