Não é de hoje que o estádio Waldemar Teixeira de Faria é símbolo do abandono e do despreparo de quem lida com o futebol e com esporte em Divinópolis. A principal cidade do Centro-Oeste de Minas tem um estádio erguido em uma área inundável, com projeto de engenharia duvidoso e encravado em uma dos locais onde há maior índice de ocorrências policiais da cidade.
A falta de visão do poder público e do empresariado da cidade contribui para que nada seja feito nem idéias inovadoras sejam levadas adiante no que diz respeito ao futebol. Enquanto isso, Nova Serrana, cidade que mais cresce em Minas, mostra que quer crescer também no esporte e anuncia um estádio novinho em folha com capacidade para 20 mil torcedores.
A falta de estrutura do futebol em Divinópolis, com o Farião em condições precárias, é colocada em xeque a cada episódio onde se exige um pouco mais de condições do estádio. Do jeito que está não dá mais.
Tradição em precariedade
É nesse estádio acanhado inaugurado em 1950, e hoje em situação melancólica, que o Guarani, um dos clubes mais tradicionais do futebol mineiro, manda seus jogos. Hoje, o Bugre é integrante do grupo dos 12 principais clubes do estado e a única certeza que se tem a cada início de temporada é que o estádio será alvo de vistorias, interdições e salvo sempre pela ajuda das autoridades da cidade.
Há quem questione a pífia capacidade de público liberada para o Farião nos jogos do Campeonato Mineiro. Mal sabe essa gente, que essa capacidade é calculada de acordo com cálculos do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar e demais órgãos de segurança, que entre as inúmeras irregularidades verificadas no estádio, constatam a deficiente capacidade de vasão do estádio. Para se ter a mínima segurança, os corredores de acesso devem ter tamanho compatível com o público de determinada área do estádio. Como os corredores de acesso no Farião são estreitos, a capacidade de público é pequena.
Esse é só um dos problemas. Não vou me alongar falando sobre as arquibancadas sujas e caindo aos pedaços, muros que se esfarelam a cada período chuvoso, saídas de emergência insuficientes, falta de banheiros, o esgoto a céu aberto em frente ao estádio que dá ao torcedor a sensação de estar assistindo o jogo em meio ao lixo e outros tantos. Quem já pisou no Farião uma única vez, sabe muito bem enumerar as falhas.
Vergonha alheia
O estado vergonhoso do Farião em Divinópolis não é conhecido só por quem mora na cidade e tem o mínimo de consciência, mas de muita gente que é obrigada a frequentar o estádio a trabalho. Quem é de fora só pode mesmo vir ao estádio à serviço, já que uma visita de livre e espontânea vontade é rara. Jornalistas de Belo Horizonte que pisam no estádio divinopolitano não poupam críticas ao que encontram. Péssimo tratamento e péssimas condições de trabalho são quase unanimidades.
No jogo do último domingo (20/02), entre Guarani e Atlético-MG (2 x 4), colegas da Rede Minas, de Belo Horizonte, que cobririam a partida, reservaram com antecedência uma cabine para acompanhar a partida, mas quando chegaram ao estádio descobriram que teriam que trabalhar em cima de uma laje sem nenhum estrutura e segurança. Enquanto isso, autoridades e amigos do clube (entenda como quiser) tratavam de usufruir do conforto e a visão privilegiada do lugar destinado a quem estava lá para trabalhar.
Do alto da laje, os profissionais da Rede Minas tiveram que se arriscar para cumprir seu trabalho e em determinado momento foram impedidos de ficar no local. Policiais militares e homens do Corpo de Bombeiros recomendaram a saída do local para a própria segurança deles. Perguntados se poderiam gravar algum depoimento sobre a precariedade da situação no estádio, os militares se negaram a falar.
Esse não foi um caso isolado. É uma rotina quase religiosa em dia de jogos importantes do Guarani, contra adversários mais fortes como Cruzeiro, Atlético e América. Quem precisa estar lá é mal tratado e quem não precisa é quase carregado nas costas.
Morro da Pitimba
No jogo entre Guarani e Atlético-MG, pela quarta rodada do Campeonato Mineiro, transmitido em TV aberta para todo estado e por canais pagos para o resto do país e do mundo, o Morro da Pitimba ganhou destaque.
Centenas de pessoas amontoadas em barrancos, árvores, sacadas, lajes e terraços se espremendo para assistir ao jogo do lado de fora do estádio, como se pertencessem a um espaço à parte do espetáculo. Será que alguém no clube sabe calcular quanto o Guarani perdeu de renda com esses espectadores? Será que no clube há alguém responsável por esse tipo de preocupação? Será que alguém no clube se importa com isso? Não. Se não se preocupam com a parte de dentro do estádio, o que dirá da parte de fora.
Alguns saudosistas e defensores do futebol antigo, dos tempos do amadorismo, chegam a tratar com romantismo a existência do Morro da Pitimba. Acham bonito, singelo, inocente e até engraçado o que acontece por lá. A reportagem com os gols de Guarani 2 x 4 Atlético, durante o Fantástico da TV Globo, tratou de ridicularizar o lugar e as condições precárias do placar do Farião. Bem legal para a cidade não é mesmo? E para quem patrocina o clube, deve ter sido positivo ter a imagem atrelada a um clube que joga nessas condições. O morro da Pitimba é muito engraçado para quem não está envolvido com o problema. E como eu não vivo nesse passado distante, trato o fato como problema, dos mais sérios.
Só citei o problema do morro na questão do clube, mas há também o sério risco de desabamento das encostas, da superlotação das casas que não possuem estrutura para receber tanta gente. Os bombeiros já visitaram o local várias vezes para orientar sobre os riscos desse costume, mas não há como controlar a “invasão da torcida”, já que o convite parte dos próprios moradores que aproveitam para faturar uns trocados com os ingressos informais.
De quem é a culpa?
A responsabilidade do Farião é única e exclusiva do Guarani Esporte Clube, dono do estádio, fato que o próprio clube parece fazer questão de esconder. Caso estivéssemos falando de um estádio lindo e moderno, com certeza estampariam nos quatro cantos do mundo algo como “somos donos do Farião”. Não ter capacidade financeira de reformar e manter dignamente o estádio, não dá ao Guarani o direito de tentar sempre se debruçar sobre os governos e autoridades municipais e de outras esferas quando os problemas relacionados ao seu patrimônio lhe batem a porta.
Não há solução para o estádio Farião onde ele está e como ele está. Uma reforma só vai mascarar o que está errado, desde a base. Insistir nele é um erro e um atraso na busca por soluções definitivas. Qualquer centavo aplicado em uma tentativa de recuperar o Farião é um centavo desperdiçado na recuperação do esporte em Divinópolis.
Um novo estádio na cidade é o recurso mais inteligente, mais barato, mais lucrativo e mais digno para a população de Divinópolis. Um trabalho de parceria entre poder público e o setor privado visando o desenvolvimento do esporte, não o próprio favorecimento, resultaria facilmente em um novo palco para o futebol. Se ficarem todos parados, nenhuma arquibancada vai brotar em algum lugar qualquer. Será preciso vontade e muito empenho, justamente o que mais falta aos envolvidos com o esporte na cidade.
Políticos e empresários ávidos por popularidade se acotovelam nas arquibancadas e nas cabines de rádio querendo se envolver com o Guarani, principalmente quando o time está em boa fase. Discursos apaixonados e vibrantes, como se todos fossem profundos entendedores do esporte e torcedores do Bugre são declamados a quem queira ouvir. Mas soluções efetivas e propostas claras não saem da boca dessas pessoas que são as primeiras a sumirem quando o time começa a despencar pelas tabelas.
O que está por vir
Se falarmos de um novo estádio em Divinópolis ou alguma solução definitiva para o Farião, não existe, nem de longe, alguma novidade. Mas se em Divinópolis nada aparenta ser desenvolvido, em Nova Serrana há uma reação emblemática.
Há poucos dias foi anunciada a construção de um estádio, com capacidade para 20 mil espectadores, pela prefeitura de Nova Serrana. O anúncio caiu como uma bomba em Divinópolis, onde se cozinha o Farião em banho-maria há anos. As obras devem começar no ano que vem na cidade que mais cresce em Minas e já demonstra que o desenvolvimento no esporte está nos incluído nesse crescimento. Nova Serrana já tem o Nacional na disputa do Módulo II do Campeonato Mineiro e se tudo caminhar bem, terá o melhor estádio da região Centro-Oeste em pouco tempo.
O que foi anunciado em Nova Serrana é o sonho de muita gente em Divinópolis que luta por um estádio decente. Porte e estrutura para um estádio novo, com maior capacidade, Divinópolis tem e merece. Cabe a quem tem o poder de decidir as coisas pela cidade, e aos que tem o poder de financiar o desenvolvimento, ter a capacidade de enxergar isso que está a um palmo de distância dos olhos de qualquer um.
O que não dá mais para aguentar é uma cidade de 210 mil habitantes, dita como pólo da região Centro-Oeste, se contentar em ter como seu principal palco do futebol um estádio em condições precárias, com capacidade para meros quatro mil espectadores, como o lamentável Farião.
Obs.: Com certeza serei muito criticado pela minha opinião, principalmente pelos mais velhos que viveram “grandes momentos” no querido Farião. Só quero com esse texto mostrar que a modernização do futebol em Divinópolis não é uma opção e sim uma necessidade. Se Wembley, o maior templo do futebol mundial foi colocado à baixo para dar lugar a um novo estádio, não é o Farião que merece status de “eterno”.