Considerado o país do futebol, o Brasil adotou esse entretenimento inglês, tão simples de ser praticado como seu esporte oficial. Camisas de times podem ser vistas nas ruas, sendo usadas como “roupas comuns”, o que não esconde a paixão pelo time que é representado. Crianças já crescem sonhando em se envolver de alguma forma com a bola. Garotos sonham em ser “boleiros”, aparecer na TV e enriquecer.
Mas em um país também considerado religioso, onde a maioria das pessoas não esconde ter fé em algum Deus, e que em camisas ou adesivos em carros utiliza frases expressando sua fé seria possível alguma relação entre a “cruz” e a “bola”? Se observarmos bem, podemos concluir que sim.
Exemplos não faltam de atletas que creditam a Deus o sucesso alcançado no esporte. Conhecido como o “mocinho” do futebol, o jogador Kaká, o bom exemplo do futebol, fala abertamente de sua fé e isso tem sido recebido de forma positiva diante da mídia. E assim como ele há inúmeros outros atletas que compartilham da mesma fé, além dos que vão aderindo com o passar do tempo. Como no caso recente do jogador Leandro Almeida, (Ex-Atletico/MG) e que hoje joga no Dynamo Kiev, na Ucrânia, que contou via twitter que freqüenta reuniões evangélicas em sua casa.
Mas as manifestações de fé costumar ir além da vida fora de campo, e começa a alcançar também os gramados. Muitos jogadores aproveitam a boa atuação em jogos para mostrar, seja com suas camisas personalizadas com frases religiosas, ou gestos e atitudes, deixam claro que a fé os impulsiona a vencer.
Mas parece que esse tipo de manifestação religiosa andou incomodando algumas pessoas. A própria Seleção Brasileira foi alvo de criticas na final da Copa das Confederações de 2009, na África do Sul. Por causa de orações feitas por seus atletas e da comemoração eufórica dos jogadores e carregada de fé na vitória sobre os norte-americanos, o presidente da federação dinamarquesa de futebol, Jim Stjerne Hansen não gostou e andou se queixando de que a seleção estaria usando o futebol como palco para a religião.
O dinamarquês enviou um documento dirigido à Federação Internacional de Futebol (FIFA) reclamando pela expressão religiosa dos brasileiros e que esta teria durado tempo demais, a ponto de atrapalhar o andamento da partida. Com isso o presidente da FIFA se comprometeu a vetar as manifestações religiosas nas Copas do Mundo, o que pareceu indicar que foi criada uma “confusão entre a religião e o esporte”.
Os resultados da religião
Polemicas à parte, uma coisa é clara: A fé tem ajudado vários atletas a superar as perdas, privações ou até mesmo a aumentarem a esperança em conseguir dias melhores e de maior brilho no mundo do futebol. A sede da fama também é um fator que pode resultar na mudança negativa dos jogadores. E a religião entra como um ponto de equilíbrio para os atletas.
Se conhecermos a trajetória da maioria dos jogadores, veremos que estes deixam seus lares ainda na adolescência, abrindo mão de tudo em busca de um sonho. Como espermatozóides que participam da corrida da fecundação, poucos conseguem alcançar o alvo proposto. Nesses casos os que são deixados para trás voltam frustrados e precisam encontrar um novo rumo na vida.
“A mídia mostra somente o jogador que está em uma situação legal, que comprou um carrão, ou uma mansão, ou está sendo bem falado, mas muitas vezes não mostra aquele jogador pai de família, que joga em times pequenos e que ganha ate um salário mínimo por mês, ou o que luta longe de casa, passando por problemas, e que não tem dinheiro pra comprar nem uma chuteira”, comenta o jogador Diney, do time júnior do Atlético Mineiro.
E alguns grupos de atletas, muitas vezes apoiados por igrejas já encontram nos clubes um bom campo para semear a fé. “O jogador vive sozinho, muitas vezes sem amigos, então ele se agarra em Deus”. – conta o jogador Roger Paranhos, goleiro profissional do Cene (MS). Envolvido nas reuniões que acontecem no clube, o atleta considera que os jogadores se agarram em Deus devido à solidão. O jogador também ressalta que as maiores mudanças de comportamento acontecem quando os jogadores decidem seguir uma religião, deixando de lado o fascínio da “fama”, deixando de lado a vida conturbada e problemas de relacionamento.
Já Davi Gonçalves, jogador da equipe júnior do América Mineiro, que teve a religião como base de sua educação, considera que ela foi uma forte aliada ao fascínio oferecido pelo mundo do futebol. Tal experiência é tão significativa em sua vida, que hoje ele faz parte de um grupo promovido por uma igreja próxima ao Centro de Treinamento. “Vejo uma relação muito forte entre a fé e o futebol, por que sempre de alguma maneira os jogadores procuram algo que os ajude a vencer.” Comenta o garoto.
Como acontece com a maioria dos jogadores que vai em busca de um sonho, ele já vive longe de casa há alguns anos, e atribui a essa educação a resistência em trilhar por caminhos errados. E ainda opina: “Acho que por se sentirem melhores e exigirem certas coisas, alguns atletas perdem um pouco a noção da realidade, se tornando orgulhosos e até mesmo agressivos.”
Mas os clubes não estão livres dos problemas sociais, ou de formação, que muitas vezes acompanham seus atletas. Recentemente alguns casos envolvendo jogadores chamaram a atenção para a vida desregrada e libertina de muitos jogadores. Foram levantadas questões importantes como envolvimento com drogas, festas que ofereciam sexo sem proteção, vícios, agressividade, e como isso tudo passou a refletir no dia a dia das concentrações. E aqueles que assumem sua fé, estão de certo modo abrindo mão dessas coisas, dificilmente estando envolvidos em polemicas ou gerando problemas maiores, chegando muitas vezes a ser exemplo e inspiração para os demais.